Entramos neste ensaio com um ditado popular que assenta que nem uma luva ao nosso convidado: falo-vos do Mazda 3.
Estamos perante um japonês e sabemos que a cultura deste país é muito dada à simbologia dos nomes e números. Deste modo, importa dizer que o número 3 significa: união, equilíbrio e completude.
União? Não se aplica neste caso. Equilíbrio, sim, pois é um carro muito harmonioso para o nosso mercado. Completude? Esse atributo está cá: durante os quatro dias que estive com ele, deixou-me muito surpreendido pela positiva.
Ao longo dos 600 km que fizemos com ele, deu para perceber a proposta que é este 3… mas que proposta! Confesso.
Para começar, é seguro – apresenta uma estabilidade em curva abismal, mesmo com chuva. A quantidade de sistemas de ajuda à condução já não é novidade hoje em dia, mas continuam a cumprir o seu papel. Apresenta um motor muito capaz, o 2.0 mild hybrid, uma adição à gama 3 que se revelou bastante solícita quando é preciso. É suave, silencioso e, com esta “pilha” de 48 volts, mostrou ser um bom aliado do 2.0 cc sem turbo.
Vem equipado com uma caixa manual de 6 velocidades: precisa, curta de escalonamento e com engates exatos. Para ser sincero, senti falta da caixa automática, pois os trajetos testados com este Mazda foram cidade e misto, e no trânsito é uma ajuda grande. Com isto, não queremos insinuar que o pedal da embraiagem seja duro, muito pelo contrário.
Outro campo, onde o 3 se sai como uma luva é o seu interior: digital q.b e analógico onde precisa, com comandos físicos para luzes e ventilação. Quanto ao espaço traseiro, posso dizer que dá, confortavelmente, para dois adultos. A mala também cumpre bem, com 351 litros de capacidade. Em matéria de espaço e conforto está aprovado com distinção. Quanto à qualidade dos materiais, a classificação é muito boa.
Já não tem LED ‘s no habitáculo – algo cada vez mais raro- e nota–se que este modelo já soma uns aninhos. O sistema de som Bose tem boa qualidade e o Apple CarPlay funciona sem fios. O sistema nativo da Mazda é bastante intuitivo, sendo operado via seletor rotativo. O Apple Carplay pode ser processado de duas formas: tátil ou através do setor. A tela central cresceu de dimensões em 2023, passando a ter 10.23 polegadas. Antes disso, ficava pelas 8,8. A qualidade de imagem é muito boa e, já agora, a qualidade das câmeras é qualquer coisa de celestial! O carregador sem fios também merece destaque: é rápido e eficaz.
A mecânica deste Mazda é o conhecido 2.0 e-skyactiv mild hybrid, com 186 cavalos (uma cavalagem muito engraçada, diga-se de passagem). Estes “Misakis” (uma raça de cavalos japonesa) entram às 6000 RPM. Ou seja, este “indivíduo” gosta mesmo de calor nesses pistões. O binário apresenta 240 Nm às 4000 Rpm. Estamos perante um asmático puro: binário a entrar em regimes médios/altos, com os Misakis soltos em ação nos regimes altos. É disto que a malta precisa: carros à antiga!
O sistema mild hybrid assenta numa bateria de 24 volts. Este sistema não acrescenta cavalos extra, mas oferece mais binário nos arranques, e isso sente-se. Há uns meses testei um CX-30 e, nos arranques, notava-se uma “lentidão” a sair da inércia, sobretudo nos regimes baixos. Quando precisávamos de força o carro muitas vezes não tinha e, quando a tinha, já não fazia falta – como o Narciso, só está lá quando não é preciso! Mas neste 3 senti exatamente o contrário: em rotações baixas, o carro já tinha uma força considerável, claramente fruto do seu sistema mild hybrid.
Embora a Mazda não divulgue números oficiais relativos aos Nm que este sistema nos oferece, podemos estimar que entre 10 a 15 Nm adicionais são disponibilizados no arranque. Ou seja, a adoção do sistema mild hybrid veio melhorar bastante a convivência com o 3. “Cortando” o e-skyactive, e falando apenas do Skyactiv: a marca orgulha-se de dizer que é um bloco a gasolina diferente daquele a que estamos habituados.
Primeiro, trabalha quase como um diesel, pois a sua mistura é pobre. Isto significa que o motor usa mais ar que combustível (logo vamos ter um consumo menor). As velas só ajudam no início da combustão e a isto o japonês chamou SPCCI (Spark Controlled Compression Ignition), em português ignição por compressão controlada por vela. Este SPCCI não está sempre “ligado”. Só acontece quando temos uma condução adequada, pois quando decidimos explorar o 3 ele desativa o sistema. É o carro que gere automaticamente quando deve ligar ou desligar. O “E” significa que é um mild hybrid de 24 volts.
Ao volante, este Mazda revela-se um automóvel fantástico. A direção é direta, comunicativa e precisa. Durante os dias que testamos o “asiático”, choveu bastante, com alturas em que houve algum varrer de frente, fruto de esforçarmos a direção em demasia em curva. Aí notamos algum “Tonkatsu” em excesso, ou seja, notou-se uma direção um “pouquito” elétrica. Em seco… este 3 foi uma lapa.
Mesmo em curva contra curva, mostrou um comportamento muito acertado, sem falar no gozo que nos proporciona. O som deste bloco é muito engraçado, principalmente, de 2ª para 3ª… e, se inicialmente senti falta de uma caixa automática, numa estrada de curvas esqueci-me rapidamente disso. A caixa é uma verdadeira “Terezinha” imaculada: precisa, direta e bem escalonada.
Há que ser realistas, o japonês sabe fazer caixas de velocidades… não há “paio” para eles! Em AE, mostrou-se muito silencioso e solícito quando foi preciso. Notamos, também, que a 6ª tinha um escalonamento ligeiramente mais longo que as restantes relações, um ponto que ajuda nos consumos. Em ritmos elevados também se mostrou muito capaz. Em lombas, nota-se algum ruído no eixo traseiro quando passamos a uma velocidade mais elevada. Quanto à posição de condução: impecável, excecional, categórica! Baixa, com excelentes regulações de volante. Aqui o 3 é muito bom!
Exterior, Interior, Níveis de Equipamento e Carroçarias
No exterior encontramos a típica linguagem da Mazda, o KODO. Com isto sabemos que o carro vai ter um design destacado dos demais concorrentes, com linhas limpas, fluídas, volumes bem definidos e vincos bem marcados.
Começando pela frente, encontramos uma grelha que integra o símbolo da Mazda, com faróis estreitos e agressivos. Tudo contribui para o seu ar másculo! No capot, existem dois vincos que realçam a frente.
Na traseira, encontramos uma parte sóbria sem grandes alaridos, com uma assinatura LED e duas “bufadeiras” reais… uma traseira limpa. Este 3 tem uma silhueta dinâmica e agressiva.
No interior destaca-se o painel digital. A sua personalização é quase nula e tem uma resolução de 7 polegadas. Vamos ser francos: os seus concorrentes fazem um pouquito melhor neste campo… ainda assim, a informação que nos dá é clara e fácil de perceber.
O volante tem uma pele de alto gabarito e a sua pega é irrepreensível.
No que respeita às carroçarias, há duas ao dispor: Hatch (a testada) e Sedan.
O Sedan é ideal para quem procura mais espaço, quer a nível de espaço para os passageiros traseiros como para as bagagens, já que a capacidade é de 444 litros – quase mais 100 litros que o hatch (351 litros).
A nível de equipamentos, a variedade é considerável: prime-line, centre-line, homura, nagisa (versão testada),
exclusive-line e takumi. No grupo propulsor, só existe o motor testado como escolha, disponível com caixa manual ou automática. Dependendo do nível de equipamento optado, há uma versão com quatro rodas motrizes, todavia esta versão de tração integral só está disponível com caixa automática.
Preços: começam nos 35 mil euros, escalando até aos 41 mil euros na versão de topo. O preço deste 3 está
alinhado com os seus concorrentes, no entanto, o design surpreende!
Mazda entregue, vamos lá às considerações finais!
Se eu pudesse, ficava com o Mazda 3. Foi um excelente companheiro de estrada. Confortável, seguro e com aquele toque de diversão que já não se encontra facilmente. A caixa manual é daquelas que nos fazem lembrar porque é que gostamos de conduzir. No trânsito, a automática faria sentido, mas fora dele este é um verdadeiro “carro à antiga”: tecnológico q.b., analógico onde realmente importa.
Este 3 tem muitos atributos. O único que talvez lhe falte não está na mecânica, está no mercado. Falta-lhe um público que saiba olhar para além do símbolo no capot. E o Mazda 3 é o oposto dessa lógica.
