Há lugares que se visitam pela paisagem e outros que se visitam pela história. E há os que se visitam por uma mentira bem contada e que, ainda por cima, a juntam com paisagem e história.
Posto isto, é melhor explicar:
Nas Portas de Ródão, onde o Tejo se estreita entre escarpas de quartzito e o silêncio se adensa, ergue-se uma torre a que o povo chama Castelo do Rei Wamba. Wamba foi um rei visigodo entre 672 e 680, homem de rigidez moral e sentido de justiça. O problema é que viveu séculos antes de a torre ser construída. Ss escavações arqueológicas não confirmam qualquer origem visigótica, e a estrutura será do final do século XI ou início do XII. A ligação entre o rei e o castelo vem da tradição oral, não dos factos.
Mas que tradição.
A lenda
Conta-se que Wamba edificou ali o castelo, onde vivia com a família. Como as andanças de caça e de guerra o mantinham ausente, ficava a rainha encarregue do governo e foi numa dessas ausências prolongadas do marido que se pôs a falar com o rei mouro que governava a outra margem. Namoravam sentados em cadeiras de pedra, uma em cada lado das Portas, com o Tejo a correr no meio.
O namoro durou tanto quanto durou a ausência do marido. Até que a rainha, de amores perdida, abandonou rei e castelo e foi-se acolher no castelo do rei mouro.
Sabendo-se traído, Wamba urdiu o resgate. Combinou com os filhos e os seus guerreiros que se escondessem junto ao castelo do rival e que acorressem em seu socorro, assim que escutassem um toque de trombeta.
Disfarçado de peregrino, entrou no castelo do rei mouro a pedir esmola e chegou a falar com a rainha. Ela reconheceu-o e denunciou-o. Feito prisioneiro, Wamba pediu ao inimigo que lhe concedesse um último desejo: tocar a corna que trazia à cinta pela última vez. Assim lhe foi permitido e companheiros acudiram, derrotaram o exército e trouxeram a rainha de volta a Ródão.
Julgada em conselho, e por sugestão do filho mais novo, foi condenada a ser atada a uma mó de moinho e despenhada pela íngreme encosta do Tejo. Diz-se ainda hoje que por onde o corpo rolou nunca mais cresceu mato.
Ao saber do destino que a esperava, a rainha terá proferido a maldição que chega aos dias de hoje:
Adeus Ródão, adeus Ródão,
cercada de muita murta
e terra de muita p*ta.
Não terá mulheres honradas,
nem cavalos regalados,
nem padres coroados.
Curioso com a lenda, que ainda para mais é muito parecida com a lenda de Gaia, decidi meter-me ao caminho e visitar o Castelo do Rei Vamba.
O carro
Meter-me ao caminho, neste caso, significava atravessar o país de lés a lés: de Miramar, em Vila Nova de Gaia, até Vila Velha de Ródão são cerca de 320 quilómetros. Ida e volta, mais os desvios e um visita à sede da Escuderia da Castelo Branco, estamos a falar de qualquer coisa como 700. Não é distância para um carro qualquer.
O Omoda 7 SHS-P chegou a Portugal em junho, numa única versão a Premium, por 44.900 euros. É o SUV que a marca chinesa colocou entre o Omoda 5 e o Omoda 9, com 4,66 metros de comprimento e 2,72 metros entre eixos, e um desenho a que o construtor chama «Art in Motion»: grelha paramétrica sem moldura, puxadores semi-embutidos, perfil fastback.
Debaixo da chapa está a tecnologia SHS — Super Hybrid System, que é como a Omoda trata os seus híbridos plug-in, que integram um motor 1.5 TGDI DHE de quinta geração, transmissão híbrida dedicada, bateria de 18,4 kWh e três máquinas eléctricas, num conjunto que dá 279 cv e 365 Nm. Os números de desempenho são simpáticos — 8,4 segundos dos 0 aos 100, 180 km/h de velocidade máxima —, mas não é aí que este carro joga.
Os argumentos são outros. A marca anuncia até 90 km em modo eléctrico segundo o ciclo WLTP, ou 124 km em ciclo urbano, e mais de 1.200 km de autonomia combinada. O consumo homologado é de 2,3 l/100 km; com a bateria esgotada, o motor térmico consome 6,0 l/100 km e bateram mais ou menos certo (para o mais, claro) com o que fiz em estrada.
Na prática, e é isto que importa num percurso destes: saí de Miramar com a bateria carregada e fiz a primeira parte quase sem gastar combustível. Depois disso, o térmico entra e sai sem drama, e o consumo estabiliza em valores que nenhum SUV de dimensão equivalente consegue com motor a gasolina apenas. O percurso juntou autoestradas, um itinerário principal, estradas nacionais, estradas de montanha e percurso urbano. Confesso que não andei obcecado com consumos e ainda por cima é um percurso longe de ser plano. A média foi de 7,7 litros.
O conforto
É aqui que o Omoda 7 se defende melhor.
O silêncio a bordo, em modo eléctrico, é o que se esperaria de um carro bastante mais caro. Nas transições para o motor de combustão não há o rugido áspero que costuma denunciar este tipo de sistema — entra discretamente, sobretudo em autoestrada, onde o ruído de rolamento já cobre quase tudo.
Os bancos aguentam bem as quatro horas seguidas que a viagem exige, e o espaço a bordo é generoso: os 2,72 metros entre eixos traduzem-se em lugares traseiros onde um adulto cruza as pernas sem negociação. A bagageira leva 537 litros.
O interior é território de ecrãs. O quadro de instrumentos digital tem 8,88 polegadas e o ecrã central 15,6, com resolução de 2.5K e uma particularidade, daquelas que servem para dar nas vistas, impressionar gic´s e pouco mais: desliza ao longo do tablier. Aqui encontra-se quase tudo o que tem a ver com os modos de condução, infotenimento e até a sintonização da rádio que, para mim, é tudo menos prática. Acrescenta-se o head-up display, Android Auto e Apple CarPlay sem fios, e função V2L, que permite alimentar equipamentos externos até 3,3 kW.
Este último detalhe deixa de ser gadget quando se chega ao destino. O acesso ao Castelo do Rei Wamba faz-se por estrada asfaltada que sobe com lentidão até ao topo. Lá em cima não há nada: nem café, nem tomada, nem multidão. Há a torre de dois pisos, a capela branca de Nossa Senhora do Castelo — mandada construir no século XVII por um barqueiro que se salvou de uma passagem atribulada pelas Portas —, as oliveiras, as azinheiras, e os grifos a planar sobre as escarpas.
Quanto ao carregamento, aceita 6,6 kW em corrente alternada e até 40 kW em contínua, recuperando dos 30% aos 80% em menos de vinte minutos. Convém dizer que, num percurso como este, não precisei disso.
O que fica
A torre nunca foi castelo, Wamba nunca ali viveu, e o túnel do rei mouro é geologicamente impossível. D. Sancho I doou a fortificação aos Templários em 1199, e nas invasões francesas ela serviu de posto de artilharia — que é uma história bem mais verificável e infinitamente menos interessante.
Mas o povo escolheu a outra, e o miradouro sobre o Tejo dá-lhe razão. Vê-se a linha do comboio colada ao rio, as escarpas das Portas, a ponte rodoviária ao longe. E percebe-se por que razão alguém, um dia, olhou para aquele sítio e decidiu que ali tinha de ter vivido um rei.
Depois seguiu-se uma passagem por Castelo Branco e regressei a casa.
